sábado, 11 de junho de 2016

A Cabanagem em Cameta

Cáa – mato floresta

Mutá ou Mutã – espécie de degrau instalado em galhos de árvores

Cametá – degrau no mato


É dividida em sete distritos: O distrito sede, com o mesmo nome do município, além de Carapajó, Curuçambá, Joaba, Moiraba e Vila do Carmo do Tocantins.

Era 1620 quando foi criado o primeiro povoado que deu origem a Cametá. Isso foi possível graças ao trabalho do frei Cristóvão de São José, um capuchinho que atuou junto aos integrantes da tribo dos Caamutás.  Os índios foram os primeiros habitantes das terras que ficavam à margem esquerda do rio Tocantins. Os colonizadores portugueses foram atraídos pelas riquezas da região, assim, pouco tempo depois o povoado virou Vila, Comarca e Município.

A 146 quilômetros de Belém, Cametá, é uma outra cidade hospitaleira e boa para quem gosta de se aventurar pela Amazônia em busca de belas paisagens e boas histórias. A cidade que um dia foi território dos índios Caamutás, hoje é tida como Patrimônio Histórico Nacional.





historia
A ligação da cidade com a história do estado é muito forte. Cametá não apoiou a Cabanagem, foi a primeira província do Grão-Pará, em 1823, a aderir à Independência do Brasil. A cidade é a única do Pará a ter um  “Monumento em Homenagem à Resistência à Cabanagem”, lembrando os conflitos em que mais de 300 cabanos foram mortos em favor do império brasileiro.

Pelas ruas da cidade é possível ver a história em forma de arquitetura. São inúmeros casarões preservados com carinho pela população. Entre os municípios paraenses é Cametá que possui a maior quantidade de monumentos históricos e culturais. Um dos destaques é a Catedral de São João Batista, de estilo neoclássico, erguida em 1757. A igreja mais antiga fica na orla da praia da Aldeia, é a de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Não se sabe ao certo quando foi construída, a estimativa é de que tenha sido no século XVIII. No século seguinte foi erguida a Igreja de Nossa Senhora das Mercês, em agradecimento a uma graça alcançada por uma tradicional família da cidade. É do mesmo período a capela de Bom Jesus dos Aflitos (1825) e a Igreja de São Benedito (1872), onde os índios foram catequisados.  A Igreja Parijós, fica no lugar onde um dia foi a aldeia dos índios Parijó e é considerada a mais bonita do município, no mesmo lugar fica um Seminário religioso.

Os prédios de algumas escolas da cidade também tem valor histórico, o do Grupo escolar Dom Romualdo de Seixas, teve a obra iniciada em 1899 e inaugurada em 1905.  O Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, foi instalado pelas irmãs da Ordem Religiosa São Vicente de Paula, em 1942. Continuando o passeio é possível encontrar vários casarões como o Palacete Azul, finalizado em 1927. A residência dos Peres,  construída em 1870, é formada por duas casas iguais e traz a beleza dos azulejos portugueses.  A residência dos Moreira, guarda ‘causos’ de assombração. A dos Belfort Lisboa, foi uma das primeiras a ser erguida na cidade e tem padrão europeu.

Na praça João Pessoa,  encontramos o monumento que nos mostra o motivo de a cidade também ser conhecida como “Terra dos Notáveis”. Nele estão os bustos de nascidos no município que marcaram a história e a política da cidade, do Pará e do Brasil: Cônego Siqueira Mendes, Ângelo Custódio, Padre Prudêncio, Deodoro de Mendonça, entre outros.

A cidade tem ainda  o Museu Histórico de Cametá Raimundo Penafort de Sena, onde também funciona a Biblioteca Pública, que guarda o  acervo da antiga história da cidade. Há também de uma Casa da Cultura e um cinema denominado “Cine Príncipe”.

As margens do rio Tocantins, Cametá chega a receber até 100 mil turistas durante as férias de julho, mês de alta temporada nas praias e balneários no Pará. A cidade tem várias praias de água doce, todas irresistíveis. As  principais são: D’Aldeia, Pacajá e Cametá-Tapera.

Para chegar nas praias de Pacajá e Cametá-Tapera é preciso ir pela  BR-422 e de lá seguir por um ramal de três quilômetros em estrada de terra batida. As águas tem tom verde escuro,  bem limpa permite ver o fundo.

A praia da Aldeia é outra opção para quem gosta de aproveitar um cenário típico da Amazônia: Água doce e límpida que forma um belo cenário cheio de riquezas naturais.

Ao chegar em Cametá, o visitante de primeira viagem pode até imaginar que vai encontrar ‘mais uma cidade do interior’, mas sem dúvida sai de lá surpreendido. Durante o passeio vai tendo contato com várias fases da história que mudaram a cidade e o Pará. Tem contato com ritmos contagiantes, pouco ouvidos na capital e que logo ganham novos apreciadores. Impossível conhecer e não querer voltar!
                                                            

A Cabanagem em Cameta
A 7 e Janeiro de 1835 irrompe em Belém a Cabanagem. Conseqüência do tremendo despotismo do governo do presidente Lôbo de Sousa.

As ruas da cidade encheram-se de sangue e são mortos o presidente da província, o comandante das armas e o chefe da estação naval.

Cametá recebe notícias da revolução tremenda e, por conta dos desmandos produzidos e da grande mortandade de civis inocentes em meio a invasão cabana na capital, pela voz do Padre Prudêncio das Mercês Tavares promete à regência combater os rebeldes.

Padre Prudêncio era um nacionalista exaltado. Sabia que o partido político ao qual era filiado na capital fazia decidida oposição a Lôbo de Sousa. Mas, naquela conjuntura, declarou-se manifestadamente a favor da regência e da legalidade.

Era um contraste claro com os festejos da independência quando Cametá dava exemplos claros ao resto da província de seu amor a liberdade, da sua repulsa aos tiranos e opressores. No entanto, certa de que seguia obediente à lei, se coloca contra os desmandos que se deram na cidade de Belém.

No mais, sendo um movimento reformista composto por mestiços, a cabanagem não conseguiu a adesão dos cametaenses, descendentes de antigos colonos portugueses (não miscigenados). O temor da perda de privilégios os levou a formar uma frente de reação aos cabanos.

Cametá se torna então um baluarte da legalidade e do Império. A cidade fortificou-se, formaram-se batalhões e estes entraram na luta combatendo os cabanos que, a todo custo, tentavam tomar a vila. Destaca-se nesta fase a figura do sacerdote e grande estrategista militar padre Prudêncio José das Mercês Tavares, filho do valoroso bandeirante paulista Felipe de Santiago Pereira Tavares, organizador da defesa da vila de Cametá.

Tropas revolucionárias sediadas em na então vila de Oeiras – atual município de Oeiras do Pará -tentam um ataque a Cametá em Maio de 1836. Os cametaenses não só resistem como invadem e retomam Oeiras do poder dos Cabanos. Daí seguem a luta e atacam outras localidades tidas como rebeldes. Apoderam-se de Breves, Prainha, Portel e Melgaço e, em 21 de Novembro do mesmo ano, marcham vitoriosos em terras de Monte Alegre.

A defesa da legalidade em Cametá era tão reconhecida que a vila chegou a sediar o governo da província, nos tempos do governo de Ângelo Custódio, como afirma RICCI:

“Depois de muitas idas e voltas, na metade do ano, Vinagre resolveu deixar o governo diante do emissário carioca, o Marechal Manoel Jorge Rodrigues. Nesta conjuntura, foi feita uma eleição e todos esperavam que o candidato mais votado para a Assembléia provincial fosse provisoriamente empossado como presidente, como rezava a constituição Imperial. Para o clã dos Vinagre o nome para a liderança era o padre Jerônimo Pimentel. No entanto, por poucos votos, Ângelo Custódio elegeu-se, ao ser o mais votado. Criava-se um impasse, pois Custódio tinha como sede eleitoral a cidade de Cametá, baluarte da resistência anticabana”.

Por ordem do comandante militar Manoel José da Silva e Melo, Padre Prudêncio mandou construir forte defesa de madeira, uma espécie de trincheira que se prolongava da praça da constituição até a primitiva travessa do relógio. Para posto de guarda ou observação fez levantar um baluarte na parte inicial da trincheira que dava frente pra o rio. Outros baluartes foram levantados ao longo da trincheira sempre ocupados por bons atiradores e guardas de vigilância.

Cauteloso, padre Prudêncio ordenou que uma flotilha de barcos bem armados vigiassem os pontos por onde os cabanos pudessem tentar um desembarque e um posterior ataque a Cametá. Conta um historiador cametaense que os rebeldes estiveram muito próximos de Cametá, tendo viajado pelos caminhos através das campinas de Pacaijó ou Vacaijó, o qual desembocava na estrada da Vacaria, em frente ao Murajuba.

No entanto, a notícia da aproximação dos cabanos chegou aos ouvidos do padre Prudêncio através de José Ramalho dos Santos, filho de abastado agricultor de Murajuba. Prudêncio preparou a tropa para resistência e alguns destacamentos foram confrontar os invasores que foram pegos de surpresa e foram derrotados tendo muitos, morrido no local onde se encontrava localizada a ponte Costa. Esse episódio é representado no monumento a Cabanagem, erguido na Praça da Cultura em Cametá.

Como já mencionado anteriormente, sob o comando de Padre Prudêncio, inúmeras expedições partiram de Cametá com o objetivo de derrotar focos de resistência cabana nas vilas e lugarejos localizados no vale dos rios Tocantins, Pará e Amazonas, ataques estes que em sua maioria lograram grande êxito e contribuíram sobremaneira à causa da legalidade.


A REPRESSÃO DA REGÊNCIA E O FIM DO MOVIMENTO CABANO:


O regente Feijó decidiu restabelecer a ordem na Província. Em abril de 1836 mandou ao Grão-Pará uma poderosa esquadra comandada pelo brigadeiro Francisco José Soares de Andréia, que conseguiu retomar a capital. Havia na cidade quase unicamente mulheres. No dizer de Raiol, "a cidade despovoada apresentava por toda parte um aspecto sombrio e contristador".

Os cabanos abandonaram outra vez Belém e retiraram-se para o interior, onde resistiram por mais três anos. A situação da Província só foi controlada pelas tropas do Governo Central em 1840. A repressão foi violenta e brutal. Incapazes de oferecer resistência, os rebeldes foram esmagados. Ao findar o movimento, dos quase 100 mil habitantes do Grão-Pará, mais de 30mil, 30% da população, haviam morrido em incidentes criminosos e promovidos por mercenários e pelas tropas governamentais.

Chegava ao fim a Cabanagem que, segundo o historiador Caio Prado Júnior, "foi o mais notável movimento popular do Brasil... o único em que as camadas mais inferiores da população conseguem ocupar o poder de toda uma província com certa estabilidade. Apesar de sua desorientação, da falta de continuidade que o caracteriza, fica-lhe contudo a glória de ter sido a primeira insurreição popular que passou da simples agitação para uma tomada efetiva de poder."

• Referências Bibliográficas:

___ Anais da Biblioteca e Arquivo Públicos do Pará, tomo XI, editora Monumentos S.A., 1969;

___ RAIOL, D. A. Motins Políticos ou História dos Principais Acontecimentos Políticos na Província do Pará desde o ano de 1821 até 1835. Coleção Amazônica, Série José Veríssimo, Belém, Universidade Federal do Pará, 1970, p. 7, v. 1.

___ RICCI, Magda. Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária: o problema do patriotismo na Amazônia entre 1835 e 1840. Revista Tempo, Rio de Janeiro, v. 22, 2006.

___ RICCI, Magda. . História amotinada: memórias da Cabanagem. Caderno do Centro de Filosofia e Ciências Humanas Ufpa, Belém, v. 12, n. 1/2, p. 13-28, 1993

___ (web) www.infoescola.com/historia/a-cabanagem/


___ (web) educacao.uol.com.br/historia-brasil/ult1689u20.jhtm